terça-feira, abril 25, 2017

Sempre!

Meus senhores, como todos sabem, há diversas modalidades de Estado. Os estados socialistas, os estados capitalistas e o estado a que chegámos. Ora, nesta noite solene, vamos acabar com o estado a que chegámos! De maneira que, quem quiser vir comigo, vamos para Lisboa e acabamos com isto. Quem for voluntário, sai e forma. Quem não quiser sair, fica aqui! 

Salgueiro Maia, 25 de Abril de 1974

terça-feira, abril 18, 2017

sexta-feira, abril 14, 2017

A travessia

Quem elegeu a busca não pode recusar a travessia.

Guimarães Rosa

segunda-feira, março 27, 2017

Tabacaria



Lembro-me perfeitamente do momento em que abri uma pequenina edição chamada "Tabacaria".
Foi há muitos anos, no início desse fantástico processo chamado adolescência.
Diria mais, aquela pequena edição encontrou-me acidentalmente. Li as primeiras estrofes e não o consegui largar até terminar o poema. Lembro-me de me encostar à parede e pensar: - o que foi isto?

Foi o início do meu secreto fascínio pelo Álvaro de Campos, assim entrei paulatinamente no Universo Pessoniano. A curiosidade obrigou-me a consumir avidamente toda a sua obra. 

"Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.

Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?)
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim."

E foi isto, após ler tudo aquilo a realidade plausível caiu de repente sobre mim e a vida continua.

Igual? - Jamais!

"Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu."

Poeta castrado, nunca!







Poeta castrado não! Serei tudo o que disserem
por inveja ou negação:




E foi o dia Mundial da Poesia, 
afortunadamente, mais uma vez, 
e nem uma palavrinha neste espaço, 
mas mais vale tarde que nunca!
O dia 21 de Março acumula a alegria de ser também o dia Mundial da Floresta e da Árvore.
Nos últimos tempos tenho vagueado pelos livros de Poesia de forma intermitente,
Há algo que se acende em mim, quando os folheio,
mas a vida é isto mesmo, 
andamos distraídos com outras coisas!
Falta-me semear canções no vento que passa,
vou semeando quando posso, 
e sinto a primordial falta dessa claridade,
dessa profundidade que só a Poesia nos aporta!
Quem sabe, quando voltarei a ter a alegria de espalhar uns poemas às hostes!
Por agora  vou-me mantendo a uma distância segura.


terça-feira, janeiro 31, 2017

As viagens são os viajantes

A vida é o que fazemos dela. As viagens são os viajantes. O que vemos, não é o que vemos, senão o que somos.

Livro do Desassossego por Bernardo Soares

quinta-feira, novembro 10, 2016

Em todas as ruas

Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto tão perto tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura


Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco

Mário Cesariny


As saudades que eu tinha desta pérola! 
Aos anos que não me lembrava deste poema.

segunda-feira, outubro 24, 2016

O Haver

Resta, acima de tudo, essa capacidade de ternura
Essa intimidade perfeita com o silêncio
Resta essa voz íntima pedindo perdão por tudo
- Perdoai-os! porque eles não têm culpa de ter nascido...

Resta esse antigo respeito pela noite, esse falar baixo
Essa mão que tateia antes de ter, esse medo
De ferir tocando, essa forte mão de homem
Cheia de mansidão para com tudo quanto existe.

Resta essa imobilidade, essa economia de gestos
Essa inércia cada vez maior diante do Infinito
Essa gagueira infantil de quem quer exprimir o inexprimível
Essa irredutível recusa à poesia não vivida.

Resta essa comunhão com os sons, esse sentimento
Da matéria em repouso, essa angústia da simultaneidade
Do tempo, essa lenta decomposição poética
Em busca de uma só vida, uma só morte, um só Vinicius.

Resta esse coração queimando como um círio
Numa catedral em ruínas, essa tristeza
Diante do cotidiano; ou essa súbita alegria
Ao ouvir passos na noite que se perdem sem história.

Resta essa vontade de chorar diante da beleza
Essa cólera em face da injustiça e o mal-entendido
Essa imensa piedade de si mesmo, essa imensa
Piedade de si mesmo e de sua força inútil.

Resta esse sentimento de infância subitamente desentranhado
De pequenos absurdos, essa capacidade
De rir à toa, esse ridículo desejo de ser útil
E essa coragem para comprometer-se sem necessidade.

Resta essa distração, essa disponibilidade, essa vagueza
De quem sabe que tudo já foi como será no vir-a-ser
E ao mesmo tempo essa vontade de servir, essa
Contemporaneidade com o amanhã dos que não tiveram ontem nem hoje.

Resta essa faculdade incoercível de sonhar
De transfigurar a realidade, dentro dessa incapacidade
De aceitá-la tal como é, e essa visão
Ampla dos acontecimentos, e essa impressionante

E desnecessária presciência, e essa memória anterior
De mundos inexistentes, e esse heroísmo
Estático, e essa pequenina luz indecifrável
A que às vezes os poetas dão o nome de esperança.

Resta esse desejo de sentir-se igual a todos
De refletir-se em olhares sem curiosidade e sem memória
Resta essa pobreza intrínseca, essa vaidade
De não querer ser príncipe senão do seu reino.

Resta esse diálogo cotidiano com a morte, essa curiosidade
Pelo momento a vir, quando, apressada
Ela virá me entreabrir a porta como uma velha amante
Mas recuará em véus ao ver-me junto à bem-amada...

Resta esse constante esforço para caminhar dentro do labirinto
Esse eterno levantar-se depois de cada queda
Essa busca de equilíbrio no fio da navalha
Essa terrível coragem diante do grande medo, e esse medo
Infantil de ter pequenas colagens.




Vinicius de Moraes

Resta-nos...

"Resta-nos a arte para não morrermos de verdade"


Nietzsche