quinta-feira, novembro 10, 2016

Em todas as ruas

Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto tão perto tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura


Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco

Mário Cesariny


As saudades que eu tinha desta pérola! 
Aos anos que não me lembrava deste poema.

segunda-feira, outubro 24, 2016

O Haver

Resta, acima de tudo, essa capacidade de ternura
Essa intimidade perfeita com o silêncio
Resta essa voz íntima pedindo perdão por tudo
- Perdoai-os! porque eles não têm culpa de ter nascido...

Resta esse antigo respeito pela noite, esse falar baixo
Essa mão que tateia antes de ter, esse medo
De ferir tocando, essa forte mão de homem
Cheia de mansidão para com tudo quanto existe.

Resta essa imobilidade, essa economia de gestos
Essa inércia cada vez maior diante do Infinito
Essa gagueira infantil de quem quer exprimir o inexprimível
Essa irredutível recusa à poesia não vivida.

Resta essa comunhão com os sons, esse sentimento
Da matéria em repouso, essa angústia da simultaneidade
Do tempo, essa lenta decomposição poética
Em busca de uma só vida, uma só morte, um só Vinicius.

Resta esse coração queimando como um círio
Numa catedral em ruínas, essa tristeza
Diante do cotidiano; ou essa súbita alegria
Ao ouvir passos na noite que se perdem sem história.

Resta essa vontade de chorar diante da beleza
Essa cólera em face da injustiça e o mal-entendido
Essa imensa piedade de si mesmo, essa imensa
Piedade de si mesmo e de sua força inútil.

Resta esse sentimento de infância subitamente desentranhado
De pequenos absurdos, essa capacidade
De rir à toa, esse ridículo desejo de ser útil
E essa coragem para comprometer-se sem necessidade.

Resta essa distração, essa disponibilidade, essa vagueza
De quem sabe que tudo já foi como será no vir-a-ser
E ao mesmo tempo essa vontade de servir, essa
Contemporaneidade com o amanhã dos que não tiveram ontem nem hoje.

Resta essa faculdade incoercível de sonhar
De transfigurar a realidade, dentro dessa incapacidade
De aceitá-la tal como é, e essa visão
Ampla dos acontecimentos, e essa impressionante

E desnecessária presciência, e essa memória anterior
De mundos inexistentes, e esse heroísmo
Estático, e essa pequenina luz indecifrável
A que às vezes os poetas dão o nome de esperança.

Resta esse desejo de sentir-se igual a todos
De refletir-se em olhares sem curiosidade e sem memória
Resta essa pobreza intrínseca, essa vaidade
De não querer ser príncipe senão do seu reino.

Resta esse diálogo cotidiano com a morte, essa curiosidade
Pelo momento a vir, quando, apressada
Ela virá me entreabrir a porta como uma velha amante
Mas recuará em véus ao ver-me junto à bem-amada...

Resta esse constante esforço para caminhar dentro do labirinto
Esse eterno levantar-se depois de cada queda
Essa busca de equilíbrio no fio da navalha
Essa terrível coragem diante do grande medo, e esse medo
Infantil de ter pequenas colagens.




Vinicius de Moraes

Resta-nos...

"Resta-nos a arte para não morrermos de verdade"


Nietzsche

segunda-feira, outubro 03, 2016

Papelada


O papel que tu tinhas na minha vida?
Acho que o perdi.
Eu nunca me dei bem com papelada


Rita Taborda Duarte, in Roturas e Ligamentos / Abysmo

Exercício 1



como um pénalti bem marcado
a vida vai para um lado
e o humano vai pra outro

Paulo José Miranda, in Exercícios de Humano/ Abysmo


terça-feira, junho 28, 2016

Recordaba que eras una mujer apasionada



Mandaram-me este vídeo, demorei vários dias até ouvir e quando finalmente tive um momento de relax: - deixa lá ver o que é isto?!

Uns segundos bastaram para perceber que era uma daquelas coisas que revolvem as entranhas, que vão lá dentro, carregadinhas de sentimento e agradeci, como se deve agradecer sempre que alguém nos brinda com coisas boas da vida!

Há no mundo pessoas que "coxeam pela mesma pata"!
É isto que mais importa: profundidade!

quarta-feira, junho 22, 2016

À Beira


Há dias assim...



Há homens absolutamente magnéticos!
ainda estou abananada! 
Apre! 
Madre mía del amor hermoso!


domingo, junho 05, 2016

Advices for life



Nos últimos tempos tenho conhecido muitas pessoas interessantes, que têm, cada um à sua medida, aportado interessantes perspectivas da vida... É certo que há muitas pessoas a pensarem o mesmo!

Já dizem por aí: La edad te va acercando a lo que realmente eres. Mas a idade também nos vai acercando a pessoas mais parecidas connosco, por necessidade e por exclusão.

Quanto mais vivo mais gosto e melhor o faço!

9 Amores




9 Amores
São nove os amores que eu vivo
Que trago dentro do peito
São ilhas de mil encantos
Terras de gente que amo
Que choro, que rio e que sou

Como viver com o espanto
Deste mar à minha volta
Azul por dentro dos olhos
Verde por dentro da alma
Da espuma branca dos dias

Eu sou uma ilha
Esta terra é minha mãe
E minha filha
Sou uma voz para o seu canto
Terra que eu amo tanto

São nove as filhas que sei
Viagens de sonhos doces
Companheiras dos antigos
Que cantam a luz dos tempos
Nas ilhas dos meus amores

Eu sou uma ilha
Esta terra é minha mãe
E minha filha
Sou uma voz para o seu canto
Terra que eu amo tanto


Texto e música de Paulo De Carvalho

Numa recente incursão a uma ilha muito perto do ártico, conversava com um amigo português, enquanto lhe dava a ouvir o que pululava pelo meu iPhone dentro do carro. Lá fora chovia a cântaros, chuva entrecortada por um vento gélido no meio de um campo de lavas negras e hostis. Após algum tempo de silêncio a desfrutar da maravilha sonora que nos acompanhava, ele respondeu-me: - só os latinos conseguem este sentimento! 
Não sei se é por ir entretanto para os Açores, mas esta música anda a dar-me as voltas às entranhas. Há muito acho que a Kátia Guerreiro tem interpretações divinas (já o mesmo não opino relativamente às suas opiniões políticas), esta é sem dúvida das melhores!
Viver numa ilha é um sentimento único, às vezes tenho saudades de quando vivia completamente rodeada de mar azul... O que é que se pode fazer a esta alma lusitana sempre carregada de saudade?

sexta-feira, abril 08, 2016

Spy in the house of Love






I'm a spy in the house of love
I know the dream, that you're dreamin' of
I know the word that you long to hear
I know your deepest, secret fear
I'm a spy in the house of love
I know the dream, that you're dreamin' of
I know the word that you long to hear
I know your deepest, secret fear
I know everything
Everything you do
Everywhere you go
Everyone you know

I'm a spy in the house of love
I know the dream, that you're dreamin' of
I know the word that you long to hear
I know your deepest, secret fear
I know your deepest, secret fear
I know your deepest, secret fear
I'm a spy, I can see
What you do
And I know

The Doors lyrics



E hoje a meio da tarde deu-me uma vontade incontrolável de ouvir esta música, 
que não ouvia há décadas!

Não se perde uma palavra do que diz este senhor!



Quantas verdades!