Metralhadoras cantam
Acenderam-se as armas pela noite dentro.
Quem rebenta? Quem morre? Quem vive? Quem berra?
Há um vento de lamentos nos lamentos do vento...
Metralhadoras cantam a canção da guerra.
Cantam granadas a canção da morte.
E há uma rosa de sangue à flor da pele.
Morrer ou não morrer é uma questão de sorte!
Metralhadoras cantam a canção da guerra.
Cantam bazucas e morteiros e estilhaços...
Cantam esta canção do aço que não erra
no espaço do seu fogo.
O espaço entre dois braços.
Cantam metralhadoras a canção da guerra.
Há um tiro que parte, há um corpo que tomba.
Desta boca fechada há um morto que berra:
Quem estoira no meu peito? O coração? Uma bomba?
Metralhadoras cantam a canção da guerra.
Todo o tempo é uma batalha.
Ataque. Fuga. Fuga. Ataque.
Silêncio. Um silêncio que aterra.
Que marca o rosto com seu peso ruga a ruga.
Um silêncio que canta na canção da guerra.
Mina. Emboscada. Pó. Pólvora. Sangue. Fogo!
Acerta. Não acerta. Erra. Não erra.
Perdeu todo o sentido dizer se galope.
Metralhadoras cantam a canção da guerra.
Cada segundo pode ser o último segundo.
Como enterrar os mortos que a memória desenterra?
Há um poço tão fundo... tão fundo... tão fundo...
Metralhadoras cantam a canção da guerra.
Há um soldado que grita: “Eu não quero morrer!”
E o sangue corre gota a gota sobre a terra.
Vai morrer gritando: “Eu não quero morrer!”
Metralhadoras cantam a canção da guerra.
Houve um que se deitou e disse: “Até amanhã!”
Mas amanhã é o dia em que se enterra
O soldado que disse: “Até amanhã!”
Metralhadoras cantam a canção da guerra.
E um jipe corre pela noite dentro.
Avança. Não avança. Emperra. Não emperra.
Passam balas de chumbo nas balas do vento.
Metralhadoras cantam a canção da guerra.
E há duzentos quilómetros de morte
Em duzentos quilómetros de terra.
Neste caminho de Luanda para o norte
Metralhadoras cantam a canção da guerra.
Manuel Alegre
Este Verão estive num país recém saído de uma guerra.
As guerras sempre me pareceram uma realidade longínqua e virtual, como algo que sabemos que existe, mas existe lá longe.
Caminhando pelas ruas e vendo as marcas da guerra por todos os cantos, as marcas das balas nas paredes, os retratos dos heróis mortos em combate, os camiões militares pelas estradas e as forças de paz instaladas na fronteira, mudou para sempre a minha perspectiva e a minha perspectiva frente às notícias das guerras.
É impossível não parar a pensar: - Porquê?
O esmagador retrato da destruição!
O mais impressionante é ver pessoas a tentar reconstruir e ter a perfeita noção que tudo aquilo é uma panela de pressão, prestes a estourar a qualquer momento...
Ver, estar e sentir é totalmente diferente de ouvir qualquer notícia desde o sofá,
numa qualquer cadeia televisiva.
As guerras sempre me pareceram uma realidade longínqua e virtual, como algo que sabemos que existe, mas existe lá longe.
Caminhando pelas ruas e vendo as marcas da guerra por todos os cantos, as marcas das balas nas paredes, os retratos dos heróis mortos em combate, os camiões militares pelas estradas e as forças de paz instaladas na fronteira, mudou para sempre a minha perspectiva e a minha perspectiva frente às notícias das guerras.
É impossível não parar a pensar: - Porquê?
O esmagador retrato da destruição!
O mais impressionante é ver pessoas a tentar reconstruir e ter a perfeita noção que tudo aquilo é uma panela de pressão, prestes a estourar a qualquer momento...
Ver, estar e sentir é totalmente diferente de ouvir qualquer notícia desde o sofá,
numa qualquer cadeia televisiva.
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