"O poeta espanhol António Machado escreveu versos que ficaram merecidamente célebres e que me vieram logo ao espírito quando li, no título do manuscrito que deu origem a este livro, a palavra “caminhos”:
“- Caminante, no hay camino,
se hace camino al andar.”
Um cientista é, de facto, um caminhante que “faz caminho ao andar”. A ciência progride quando o cientista percorre, por sua escolha, caminhos que nunca antes ninguém tinha sulcado, mas que a partir daí ficam à disposição de outros para serem alargados e melhorados. Por vezes o primeiro passeio é solitário, enquanto noutras ocasiões a excursão se realiza em grupo. Nalguns casos, uma vereda estreita, escolhida com inteligência por um só caminhante ou por um pequeno grupo no meio de terreno virgem, dá progressivamente lugar a uma via larga por onde muita gente vai passar.
“- Caminante, no hay camino,
se hace camino al andar.”
Um cientista é, de facto, um caminhante que “faz caminho ao andar”. A ciência progride quando o cientista percorre, por sua escolha, caminhos que nunca antes ninguém tinha sulcado, mas que a partir daí ficam à disposição de outros para serem alargados e melhorados. Por vezes o primeiro passeio é solitário, enquanto noutras ocasiões a excursão se realiza em grupo. Nalguns casos, uma vereda estreita, escolhida com inteligência por um só caminhante ou por um pequeno grupo no meio de terreno virgem, dá progressivamente lugar a uma via larga por onde muita gente vai passar.
Esta metáfora do desbravar das fronteiras de ciência não é, evidentemente, original. O grande matemático alemão David Hilbert, num discurso que pronunciou em memória do seu colega suíço Hermann Minkowski (o famoso professor de Matemática de Einstein, na Escola Politécnica de Zurique, que mais tarde ajudou à matematização da teoria da relatividade restrita), afirmou:
"A nossa ciência, que amámos acima de todas as coisas, juntou-nos. Ela apareceu-nos como um jardim florido. Neste jardim existiam caminhos bem conhecidos de onde se podia olhar à volta à vontade e desfrutar a paisagem sem esforço, especialmente ao lado de um companheiro de ofício. Mas também gostámos de procurar trilhos escondidos, tendo descoberto uma vista inesperada que era agradável aos olhos; e quando um a apontava aos outros, e a admirámos em conjunto, o nosso prazer era completo."
O prazer da descoberta científica começa, portanto, por ser o prazer dos calcorreadores de novos trilhos, um prazer que tem de ser, pela própria natureza da ciência, rapidamente comunicado a outros (ciência oculta não é ciência!), de modo a que a admiração seja “em conjunta” e o “prazer completo”. Em primeiro lugar, é comunicado aos colegas de ofício que sabem reconhecer um “bom caminho”. É a partilha imediata do saber entre os pares que permite a sua avaliação e eventual validação, impedindo a propagação de quaisquer erros. Mas o prazer da descoberta deve também ser, sem grande atraso, comunicado à sociedade em geral, para que os mais interessados fiquem com uma ideia, ainda que preliminar e aproximada, do que acaba de ser acrescentado a esse património da humanidade que é o conhecimento científico do mundo. A ciência, um dos mais notáveis empreendimentos do Homo sapiens sapiens, deve ser propriedade de todos. E, por isso, as novidades da ciência devem estar à disposição do conjunto de todos os seres humanos, que têm, além dessa aquisição intelectual, também direito aos benefícios da aplicação dos conhecimentos do modo mais equitativo que for possível. A ampla difusão dos ensinamentos assim como das aplicações da ciência é hoje um elemento indispensável do conceito de ciência.
(...)"
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